14/05/2010

O sagrado e o profano

«Para o Homem religioso, o espaço não é homogéneo: apresenta roturas, quebras; há porções de espaço qualitativamente diferentes das outras. "Não te aproximes daqui, disse o Senhor a Moisés, descalça as sandálias; porque o lugar onde te encontras é uma terra sagrada" (Êxodo, 111,5). (...)
A fim de pôr em evidência a não-homogeneidade do espaço, tal qual ela é vivida pelo Homem religioso, pode fazer-se apelo a qualquer religião. Escolhamos um exemplo que está ao alcance de toda a gente: uma igreja, numa cidade moderna. Para um crente, esta igreja participa de um espaço diferente na rua onde se encontra, ela está repleta de hierofanias. A porta que se abre para o interior da igreja significa de facto uma solução de continuidade. O limiar que separa os dois espaços indica ao mesmo tempo a distância entre os dois modos de ser, profano e sagrado
Mircea Eliade, O sagrado e o profano (adaptado)

Análise da experiência religiosa

- Tal como temos vindo a fazer nos temas anteriores, a abordagem da temática da religião será feita, não com o objectivo de dar uma resposta taxativa para as questões mas sobretudo, de modo a que todos possamos reflectir mais conscientemente sobre as crenças que naturalmente já possuímos.
- Quando falamos de religião, é inevitável falar na sua:
o    Universalidade
§  A maioria dos autores defende que a religião é um fenómeno universal, ou seja, onde quer que haja uma sociedade humana, há a tendência para a experiência religiosa.
§  Mas por que razão o homem é, na sua generalidade, um ser religioso?
·         A religião surge como necessidade de explicar fenómenos inexplicáveis
·         A religião como fonte de regras e normas sociais – como forma de legitimar a ordem e a harmonia sociais (nas sociedades laicas, esta razão é já obsoleta, mas nas sociedades em que ainda não há uma separação entre a Igreja e o Estado, este aspecto é ainda hoje em dia muito pertinente)
·         A religião como forma de superar as nossas limitações
o    Homem como ser limitado naquilo que faz, naquilo que sabe, naquilo que é
o    A vida confronta-nos com situações-limite, as quais não podemos transpor, alterar (morte, sofrimento, acaso, culpa, etc). Muitas vezes, quando o ser humano se vê confrontado com estas situações, com a sua finitude e contingência, fragilidade e precariedade da sua existência, então dá-se uma abertura a um novo tipo de experiência que intenta dar um sentido a essas situações limite, torná-las suportáveis, dá-se aí uma abertura à transcendência.
o    Diversidade
§  Se é verdade que a religião é um fenómeno universal, também não podemos negar que é um fenómeno multiforme, cheio de diversidade.
§  O que é que as religiões têm em comum?
·         Etimologia da palavra:
o    relegere – prestar culto, homenagem
o    religare – religar, tornar a juntar
o    As religiões têm em comum a ideia de sagrado ( profano)/transcendência (imanência)
·         Sagrado - algo que merece veneração ou respeito religioso por ter uma associação com uma divindade ou com coisas divinas
·         Ao fenómeno pelo qual o sagrado, a transcendência se manifesta no mundo quotidiano, chamamos de hierofania (conceito paradoxal, contraditório: numa hierofania, o objecto considerado sagrado é, ao mesmo tempo, um objecto normal e não o é, aos olhos de um crente).
·           Qualquer religião é composta por:
o    uma dimensão pessoal, que diz respeito ao indivíduo em particular, à sua própria experiência intima e compromissos individuais; é assim, vivida de forma diferente por cada um dos indivíduos (ref. à experiência mística – relação directa com o sagrado; de acordo com alguns autores estas experiências são o que está na origem da religião)
·         uma dimensão social que se reflecte:
o    num conjunto de crenças partilhadas, num culto – manifestações sociais de celebração da fé
num conjunto de normas e regras, numa organização/instituição
Para que serve a dimensão social da religião?
·         para assegurar estabilidade
·         para garantir a identidade da religião; as fontes da religião são as mesmas (textos sagrados, dogmas básicos, mitos, crenças)
·         para regular a vida moral dos crentes
·         Muitos autores consideram que a religião é o elemento aglutinador de uma sociedade, cultura ou civilização.

Análise da experiência religiosa

Clique aqui para consultar o powerpoint sobre este tema:
https://docs.google.com/fileview?id=0B7yHPIYu4ZPTYjkwYzNkNmUtZmEwZC00ZGQxLWJlMTktZjlmY2ZmZTBkYjNk&hl=pt_PT

A desobediência civil - é moralmente aceitável infringir a lei?


  A desobediência civil - Nigel Warburton

«Algumas pessoas argumentam que a violação da lei nunca se pode justificar: se não estamos satisfeitos com a lei, devemos tentar mudá-la através dos meios legais, como as campanhas, a redacção de cartas, etc. Mas há casos em que tais protestos legais são completamente inúteis. Há uma tradição de violação da lei em tais circunstâncias conhecida por desobediência civil. A ocasião para a desobediência civil emerge quando as pessoas descobrem que lhes é pedido que obedeçam a leis ou a políticas governamentais que consideram injustas.
A desobediência civil trouxe mudanças importantes no direito e na governação. Um exemplo famoso é o movimento das sufragistas britânicas, que conseguiu publicitar o seu objectivo de dar o voto às mulheres através de uma campanha de desobediência civil pública que incluía o auto-acorrentamento das manifestantes. A emancipação limitada foi finalmente alcançada em 1918, quando foi permitido o voto às mulheres com mais de 30 anos, em parte devido ao impacte da primeira guerra mundial. No entanto, o movimento das sufragistas desempenhou um papel significativo na mudança da lei injusta que impedia as mulheres de participar em eleições supostamente democráticas.
Mahatma Gandi e Martin Luther King foram ambos defensores apaixonados da desobediência civil. Gandi influenciou decisivamente a independência indiana através do protesto ilegal não violento, que acacbou por conduzir ao fim da soberania britânica na Índia; o desafio de Martin Luther King ao preconceito racial através de métodos análogos ajudou a garantir direitos civis básicos para os Negros americanos nos estados americanos do Sul.
Outro exemplo de desobediência civil está patente na recusa de alguns americanos em participarem na Guerra do Vietname, apesar de serem requisitados pelo governo. Alguns americanos justificaram esta atitude afirmando acreditar que matar é moralmente errado, pensando por isso que era mais importante violar a lei do que lutar e possivelmente matar outros seres humanos. Outros havia que não objectavam a todas as guerras, mas sentiam que a guerra do Vietname era injusta e que sujeitava os civis a grandes riscos, sem nenhuma boa razão. A dimensão da oposição à guerra do Vietname acabou por conduzir os Estados Unidos à retirada. Sem dúvida que a violação pública da lei aumentou esta oposição.
A desobediência civil corresponde a uma tradição de violação não violenta e pública da lei, concebida para chamar a atenção para leis ou políticas injustas. Os que agem nesta tradição de desobediência civil não violam a lei unicamente para seu benefício pessoal; fazem-no para chamar a atenção para uma lei injusta ou para uma política moralmente objectável e para publicitar ao máximo a sua causa. Por isso é que estes protestos ocorrem habitualmente em lugares públicos, de preferência na presença de jornalistas, fotógrafos e câmaras de televisão. Por exemplo, um americano chamado para a guerra que deitasse fora a sua convocatória durante a Guerra do Vietname, escondendo-se de seguida do exército só por ter medo de ir para a guerra e por não querer morrer, não estaria a executar um acto de desobediência civil. Seria um acto de autopreservação. Se agisse da mesma maneira, não por causa da sua segurança pessoal, mas por motivos morais, mas que no entanto o fizesse em segredo, não tornando público este caso de nenhuma forma, continuaria a não poder considerar-se um acto de desobediência civil. Pelo contrário, outro americano convocado para a guerra que quimasse a sua convocatória em público perante câmaras de televisão, comunicando ao mesmo tempo à imprensa as razões que o levavam a pensar que o envolvimento americano no Vietname era imoral, estaria a cometer um acto de desobediência civil.
O objectivo da desobediência civil é, em última análise, mudar leis e políticas particulares, e não arruinar completamente o estado de direito. Os que agem na tradição da desobediência civil evitam geralmente todos os tipos de violência, não apenas porque pode arruinar a sua causa ao encorajar a retaliação, conduzindo assim a um agravamento do conflito, mas sobretudo porque a sua justificação para violar a lei é moral, e a maior parte dos princípios morais só permite que se prejudique outras pessoas em situações extremas, tal como quando somos atacados e temos de nos defender.
Os terroristas ou os combatentes pela liberdade ( a maneira como lhes chamamos depende da simpatia que temos pelos sues objectivos) usam actos violentos com fins políticos. Tal como os que enveredam por actos de desobediência civil, também eles desejam mudar os estado de coisas existente, não para benefícios privados, mas para o bem geral, tal como este é por eles concebido; mas diferem nos métodos que estão preparados para usar para originar a mudança desejada.»

Nigel Warburton
Tradução de Desidério Murcho
Elementos Básicos de Filosofia, Gradiva, Lisboa, 1998, pp. 132-135